sábado, 9 de abril de 2016

Ignorar a si mesma

      Como um vento ríspido e gélido, minha alma parece passar por meu corpo como se ele não fosse mais do que uma folha de papel. Ignora os muros que criei para me proteger dos sentimentos mais fortes e quebra as correntes com que tranquei as portas dos meus pesadelos. Sai de meus braços e pernas fracos e olha o mundo externamente pela primeira vez em toda a sua vida.
      Meu corpo, agora desabitado, cai na cama, buscando um abrigo que sabe que não encontrará. A alma flutua livremente sobre a a forma desfigurada e inesperadamente não sente nada pelo que vê. Sabe que aqueles ossos foram o que lhe sustentaram durante tantos anos, que aqueles músculos foram o seu abrigo, que aquele cérebro foi responsável por realizar seus pensamentos tão criativos.
      Porém, o sofrimento tinha feito com que minha alma ignorasse o corpo que jazia sob sua aura brilhante. Ela tinha conhecido a felicidade, é claro; mas o preço fora alto demais. As dores, as decepções, as traições a talharam para ignorar o que não fosse de primeira importância. De primeira necessidade. Tudo pelo que passou pareceu lhe impor uma ideia de que a sobrevivência é a única maneira de viver na Terra. E agora, minha alma não queria mais estar em uma pseudovida.
      Aprendendo a esquecer o que lhe não fosse útil, minha alma virou as costas para meu corpo e partiu para sua próxima aventura. Ela sabia que só seguiria em frente quando ignorasse os obstáculos ultrapassados. Ela só seria livre quando deixasse sua pior inimiga para trás: ela mesma.

Beijinhos, Beatriz.

16 comentários:

  1. Olá, Beatriz.
    Que texto lindo e triste ao mesmo tempo. Parabéns! Acredito que todos os sentimentos fazem parte. Não tem como conhecer a felicidade se não conhecer o outro lado também.

    Blog Prefácio

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    1. Oi, Sil! Muito obrigada mesmo, fico muito feliz que você tenha gostado. Exatamente, às vezes a dor é muito grande, mas inevitavelmente necessária. Beijinhos, Beatriz.

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  2. Que texto mais lindo, inspirador e que nos traz uma grande lição.
    Adorei ler e confesso que me identifiquei porque vivi tudo isso, ahn, quem nunca né?
    Decepções, felicidades e quedas doídas, medo de recomeçar, medo de viver... Hoje aprendi a superar e me arriscar, sem medo de nada.
    Beijos. ♥

    Diário da Lady

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    1. Muito obrigada, Lady! Acho que todas nós já passamos por momentos assim, mas isso de forma alguma os torna mais fáceis. Estou tentando ser mais corajosa também, espero algum dia conseguir! Beijinhos, Beatriz.

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  3. Oi, Beatriz.

    Parabéns pelo seu texto, belo e melancólico na medida certa. Às vezes é melhor partir do que viver uma meia vida, né?

    Beijo
    - Tamires
    Blog Meu Epílogo | Instagram | Facebook

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    1. Muito obrigada, Tamires. Concordo com você, sobreviver e não viver nunca é a saída. Beijinhos, Beatriz.

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  4. Que texto lindo, faz a gente refletir muito né.
    Só conhecemos a verdadeira felicidade quando ela vem depois de uma dor, mas precisamos aprender a passar por elas para atingir a felicidade né!
    Beijos
    BlogCarolNM
    FanPage

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    1. Muito obrigada, Carol! É como se a felicidade fosse um arco-íris perdida num caminho cheio de espinhos... Beijinhos, Beatriz.

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  5. Maravilhoso texto! Parabéns!
    beijinhos
    http://direitoporlinhastortas-id.blogspot.pt/

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    1. Muito obrigada, Inês! Beijinhos, Beatriz.

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  6. Oie
    Uau, adorei o texto, bem reflexivo.

    Beijos
    http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br

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    1. Muito obrigada, Nessa :D Beijinhos, Beatriz.

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  7. Parabéns pelo texto, muito bom! <3
    Beijos

    www.rabiscando.com.br

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    1. Muito obrigada, Angélica! Beijinhos, Beatriz.

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  8. Olá Bia!
    Adorei esse seu texto. Como se nossa corpo fosse um prisão e a nos libertássemos apenas na hora de morte.
    E, acho que é bem isso mesmo. haha
    Beijos!

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    1. Oi, Ane! Fico muito feliz que tenha gostado e foi exatamente isso que quis transmitir com o texto. Muitas vezes me sinto presa em mim mesma e me pergunto o que realmente estamos vivendo. Beijinhos, Beatriz.

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