Encolho-me sob os braços de minha mãe, querendo lhe transmitir por inteiro aquela lembrança quentinha como bolo saindo do forno. Não estamos sob um céu azul de apertar os olhos; é o frio cortante e úmido que tenta nos invadir sob as cobertas. Já os balões são apenas as imagens de filmes alegres às quais nos seguramos e nas quais nos inspiramos para não perder a fé. O cheirinho doce, felizmente, realmente sai da cozinha como uma pontada de fantasia em meio à realidade estressante.
Como uma âncora, a vida real me afunda, me sufoca, me amarra. A sensação, a memória de felicidade se esvai completamente para os neurônios de minha mãe. Seu sorriso instantâneo mostra o quanto aqueles momentos compartilhados também lhes são especiais. Entretanto, seus olhos voltam a ficar tristes, fazendo-me questionar o que há de errado em nossa lembrança. Logo, as pontas de meus dedos começam a formigar: é a imagem voltando. Vejo parte das casinhas brilhantes surgir diante de meus olhos em meio ao meu pálido e frio quarto.
-Podemos ser felizes juntas - sua voz maternal me relembra o real significado de um amor puro: compartilhar. Seja uma pequena lembrança, seja ruas inteiras de risadas e sonhos: o que as torna especiais é o fato de as termos dividido com outro alguém.
Sorrio com os lábios gelados. Juntas, rimos atravessamos uma animada multidão e assistimos a chuva cair ainda em nossa janela.
Beijnhos, Beatriz.



